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Assojubs promove a palestra “Vamos Falar de Prevenção ao Suicídio?” com o médico psiquiatra Fernando Calderan

Na noite de 18 de setembro, a Assojubs recebeu em sua sede de Santos o médico psiquiatra Fernando Calderan com a palestra “Vamos Falar de Prevenção ao Suicídio?”, um tema, segundo o próprio profissional, contraditório e que desperta diferentes sentimentos nas pessoas, como interesse, indignação, não compreensão, medo e curiosidade por saber os motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida.

Iniciando sua apresentação, Calderan explicou aos presentes que o suicídio, em um panorama geral, é uma epidemia, pois acontece com muita frequência no mundo todo, cerca de 800 mil casos por ano. A cada 40 segundos uma pessoa morre vítima de suicídio e é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. A maior população que comete suicídio é a de idosos, mas entre os jovens o fenômeno vem crescendo no Brasil (contrariamente ao que ocorre com as demais faixas etárias, que vêm se mantendo constante ou até diminuindo, no país o fenômeno vem crescendo devido aos mais novos).

De uma maneira geral, de acordo com o psiquiatra, a tentativa de suicídio ou o próprio suicídio são de notificação compulsória*, sendo que as maiores vítimas são as pessoas jovens e em situação de vulnerabilidade social têm maior propensão a cometerem o suicídio.

Nesse sentido, explicitou que os seguintes segmentos apresentam destaque: os menos escolarizados (embora as pessoas com melhores condições de educação e econômica consigam disfarçar a tentativa de suicídio ou o próprio suicídio, pois ainda há preconceito e tabu social), os indígenas, os adolescentes (que tendem a ser mais  impulsivos e ainda indicam ter menor repertório para lidar com as dificuldades), homens com mais de 59 anos de idade, os familiares ou pessoas próximas também são vítimas, pois geralmente o suicídio está envolvido com o contexto familiar, e, de modo geral, pessoas com  maior vulnerabilidade  social.

Entre as populações de maior risco estão: a LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros), que tem uma incidência de suicídio cinco vezes maior de tentativas do que na população em geral, a indígena, os que vivem nas periferias das cidades, e imigrantes ilegais (fora de seu território e longe de pessoas de sua região) tem probabilidade maior devido ao distanciamento das referências pessoais, inclusive a ocorrência de outros transtornos mentais é mais elevada, pois não tem seus pares para se apoiar, e que pode levar ao suicídio.

O fenômeno do suicídio se manifesta porque existe um sofrimento intenso, desmedido, que leva a pessoa a não ver outra saída. Além do distanciamento das referências pessoais e da própria comunidade, outros fatores podem ser observados: a pobreza, falta de apoio e as dificuldades políticas que estão envolvidas. Exemplificou com conjunturas de pessoas deslocadas de seus territórios, como no caso dos indígenas e refugiados, e questões culturais preponderantes, como o machismo em alguns países, o caso da China, que apresenta um índice alto de suicídios entre as mulheres, que tem um papel limitado na sociedade, e são subjugadas.  

Diante disso, formas de atuar na prevenção para tentar diminuir as taxas de suicídio são necessárias, a campanha do setembro amarelo é uma prova disso. Na opinião do especialista, é importante falar sobre o assunto, quebrar o tabu, de forma clara, sem preconceito, e fazer enfrentamento desta importante questão. O CVV (Centro de Valorização da Vida) é um órgão referência no Brasil na questão e prevenção ao suicídio. Mas, iniciativas espontâneas funcionam bem muitas vezes.

De acordo com Calderan, um ponto relevante na vida pós-moderna, é o “esvaziamento da subjetividade”, pois hoje há uma “questão de aparência, de mostrar felicidade, de vender isso como produto”, principalmente com a Internet e o advento das redes sociais. É preciso entender esse fenômeno e tentar ajudar quem sofre com ele.

A partir das redes sociais são criados comportamentos: se o indivíduo posta algo e isso tem muitas curtidas, é incentivado a divulgar mais sobre o mesmo tema. Quem tem uma identidade com características mais frágeis, tem a tendência de postar somente o que faz sucesso, então vai massificando, colocando apenas o que dá ibope e acaba não desenvolvendo sua personalidade. Para tanto, a massificação é ruim porque torna as pessoas iguais e é a diversidade que traz a riqueza, e, nesse sentido, é um aspecto negativo das redes sociais.

A Internet é um caldeirão de coisas positivas e negativas e está transformando as pessoas. O que não se sabe é se será bom ou não. O Instagram passou a ocultar as curtidas porque a quantidade delas gerava uma competição, o que levou a um sentimento de insatisfação, pois, geralmente os mais jovens fazem uma comparação.

No Facebook foi criada uma equipe médica para cuidar dos profissionais que ficam excluindo as fotos censuradas – de guerras, massacres. Segundo Calderan, entre esses trabalhadores há uma incidência grande de suicídio, pessoas que adoecem por causa do trabalho.

Para o psiquiatra, o diálogo é a maior prevenção. É necessário perguntar diretamente sobre intenções, pensamentos, planos e ideias. Toda vez que se faz com que a pessoa verbalize, pode gerar um outro sentimento que a faz repensar e iniba o comportamento. A conversa é a ferramenta mais importante.

Estar disponível, acompanhar quem está em sofrimento e conseguir identificar se está em uma crise suicida, observar os casos de depressão, dependência química e transtorno bipolar são igualmente fundamentais. Assim como procurar ouvir sem julgamentos e buscar o encaminhamento ao CVV ou pronto atendimento, se for urgência, um familiar ou auxílio profissional para orientar e manejar a crise de forma mais efetiva.

E evitar que a pessoa se exponha a situações que facilitem para que o suicídio aconteça, como proximidade com armas de fogo, deixar a pessoa sozinha, vulnerável, são algumas diretrizes que fazem parte da cartilha da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do SUS (Sistema Único de Saúde) para a prevenção ao suicídio.

Nos últimos tempos foram desenvolvidas várias iniciativas de prevenção ao suicídio na Internet e redes sociais. Uma iniciativa que teve repercussão boa e aspectos positivos citada pelo psiquiatra foi a de uma jovem que criou um aplicativo de prevenção ao suicídio: “Tá Tudo bem?” Para fazer uso, é solicitado o escaneamento do QR Code (código para entrada no programa). Quando em desespero, a pessoa acessa e é oferecido alguns caminhos e passado o contato do CVV como alternativa.

Outra iniciativa interessante é uma feita pelo próprio palestrante, que desenvolveu um site sobre os cuidados da saúde mental na melhora da qualidade de vida e que também aborda sobre setembro amarelo, o: http://espacoconsciencia.com.br/

*Foi sancionada no dia 26 de abril de 2019 a Lei 13.819, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. O texto determina a notificação compulsória, pelos estabelecimentos de saúde, dos casos de violência autoprovocada, incluindo tentativas de suicídio e a automutilação.