Com Hernan Siculer, palestra Neoliberalismo – Análise do mal-estar contemporâneo é realizada na Asso

A Assojubs recebeu na noite de 28 de agosto Hernán Siculer, psicanalista argentino, que apresentou a palestra Neoliberalismo – Análise do mal-estar contemporâneo, uma explanação sobre como essa vertente econômica afeta a subjetividade e a forma do indivíduo se relacionar com o mundo.

O evento foi uma parceria da Assojubs com o Sintrajus no intuito de contribuir para a interpretação da atual conjuntura vivida no país, conforme descreveu Fernanda Copelli Vilas Boas, 1ª secretária da associação em sua fala inicial: “A atividade é para tentarmos pensar juntos, entender o que acontece conosco que, como sociedade, não temos tido a capacidade de reagir ao que está acontecendo”.

De acordo com o psicanalista, desde 2008 vem sendo produzida uma ofensiva bastante conservadora nos países da América Latina. Os poderes político e econômico juntos com parte do Judiciário e meios corporativos de comunicação vêm colocando em funcionamento uma modalidade para desestabilizar governos democráticos. O objetivo é implementar políticas neoliberais.

O neoliberalismo surgiu nos anos 70, se consolidou consideravelmente a partir dos anos 80 e chegou à máxima expressão na última década. Trata-se de uma mutação do capitalismo industrial clássico, com diferenças substanciais: hoje, o paradigma é o mercado financeiro e o sujeito é o consumidor.

A doutrina cria uma subjetividade individualista, egoísta, meritocrática e consumista. E se observa claramente que foi normalizado o que antes era inaceitável, como, por exemplo, as injustiças sociais. Em relação ao conceito tão falado da meritocracia e sua frase de referência “se você quer, você pode”, Siculer ressaltou que o problema está em acreditar que os que não podem, na verdade, não querem e são rotulados como vagabundos e fracassados. O conceito de meritocracia tem, realmente, uma condenação social. As instituições, que deveriam velar pela justiça social, se convertem em ferramentas para castigar os menos favorecidos.

Siculer explicou que houve uma perda da importância das narrativas amplas e atualmente o que impera é um discurso que articula ciência, tecnologia e lei de mercado, num projeto biopolítico, e se perdem princípios e fundamentos filosóficos. Uma mudança que produz o crescente predomínio da imagem sobre a ideologia. As redes sociais são um exemplo: a primazia das fotos sobre as palavras.

Essa cultura do consumo, em sua visão, não será fácil de mudar. Para o psicanalista, uma característica importante do neoliberalismo e que se define como liberdade de mercado, não tem nada de liberdade. O sujeito acredita ter o poder de escolha, mas o caminho é único: o do consumo. Não há alternativa. A consequência é o endividamento. E quem dita o consumo são as multinacionais, monopólios e oligopólios, que decidem a direção do mundo.

O neoliberalismo vem acompanhado da diminuição do Estado, com a deterioração do serviço público, que acarreta no fortalecimento da privatização e destruição dos empregos. Nos últimos três anos foi constatada a diminuição de 230 mil postos de trabalho.

O poder midiático é importante nessa consolidação do neoliberalismo, pois impõe um sentido único que se transforma em sentido comum e, desse modo, cria uma cultura de massa. É o caso da Reforma da Previdência, a qual a grande mídia defende afirmando não existir outra alternativa no país. Não é verdade. Há estudiosos que opinam contrariamente, mas não são convidados a debater sobre o tema nestes espaços. É uma ideia veiculada nos meios de comunicação que modela a opinião pública.

No neoliberalismo, segundo o psicanalista, se produz uma nova forma de pensar, de que a vida deve ser vista como uma empresa, avaliada por seu rendimento, e o ser humano deve ser empreendedor de si mesmo. E não se trata mais de ser um trabalhador que serve como força de trabalho para um patrão, apesar de, na prática, continuar sendo assim, mas, com essa subjetividade empresarial, o sujeito se explora no intuito de alcançar sempre mais, uma busca inalcançável.

A matriz narrativa é que o sujeito tem que ser feliz. Mas, precisa ter mais para isso. E essa felicidade acaba sendo limitada, parcial e efêmera justamente por causa dessa necessidade de novas conquistas. Como consequência, ele se sente incapaz por não obter a felicidade plena e se sente culpado por não estar à altura. Siculer articulou conceitos da psicanálise, como pulsão de morte e superego, com a cultura e funcionamento do neoliberalismo, sintetizando como o indivíduo se vê culpado, responsabilizado, pela sua incapacidade de felicidade plena (nos moldes dos ideias neoliberais). Não é à toa, explicou, que se vive uma epidemia dos transtornos mentais ditos da responsabilidade, como a depressão.

A perversão do neoliberalismo está em fazer das misérias humanas um ideal, na medida em que impulsiona e estimula o extermínio do outro e legitima as injustiças sociais, através da lente meritocrática. O sujeito se considera um número, e seu número tem que ser maior que o do outro. O neoliberalismo se caracteriza pelo ódio, uma lógica exclusiva, que divide: ou ele ou eu. Já o amor é o contrário, e se torna uma lógica inclusiva, ele e eu.

E é contra essa lógica que deve haver a luta, a resistência por uma sociedade solidária, que caminhe pela lógica inclusiva, pelo amor, e não da lógica exclusiva, pelo ódio.